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  Pego

Tem aproximadamente uma área de 36.08 km2 e 3032 habitantes. É constituída pelas localidades do Pego e de Coalhos.

Quem sai de Abrantes para Portalegre pela EN 118, na margem esquerda do Tejo, depressa sobe da Ribeira de Coalhos para o Pego, que fica num pequeno planalto, e logo repara nessa marca das casas baixas e garridas. Primeiro sinal de uma terra com marcas de identidade específica.

As casas e o rancho, os petiscos e o falar típico, são os quatro cartões de visita do Pego. Quatro, como as letras do nome.

“Pego, logo existo”, dizia um apaixonado pelo Pego, enquanto outro afirmava que “se os pegachos não fossem do Pego eram peguenses”. O que significa que encontraram no Pego qualquer coisa de diferente. Mas vamos por partes.

As casas baixas, muito caiadas de branco e debruadas com barras geométricas em cores vivas, sobretudo azul, verde ou amarelo, são o orgulho das mulheres do Pego. E marcam decisivamente as ruas da povoação. As mulheres ainda hoje fazem orgulho no seu caiar insistente.

Noutros tempos investiam também na “casa de fora”, a sala de então, onde dominava o “Senhor”, um crucifixo ladeado de dois “ramos” em jarras de “pó de pedra”. O ramo era um conjunto de rosas, normalmente catorze, de botões e de folhas, tudo em papel de seda e suportado por uma armação de arame. As pétalas eram de cores claras (azul, rosa e branco) e as folhas verdes. O crucifixo podia ainda ter uma “campela” ou arco de flores de papel à volta. Na casa de fora havia também a “cantareira”, um nicho na parede onde se arrumava a “loiça fina”. No “friso”, por cima da cantareira e a todo o comprimento da parede expunham-se as travessas, os pratos grandes e, por vezes, os tachos de “arame” (de latão). O asseio deve ainda ser frisado como uma preocupação, por vezes uma obsessão, típica da aldeia. As chaminés, datadas, com arquitectura e decoração a denunciar o tempo da construção, acrescentam uma nota de interesse ao conjunto.

O Rancho Folclórico do Pego é o principal embaixador itinerante do nome e da cultura pegacha. Nasceu para representar a freguesia na primeira Feira do Ribatejo, adoptando a partir daí o nome de Bailarinos do Pego. Era, naquele tempo de domínio das marchas carnavalescas, um grupo que fazia diferença pela exibição de danças e trajes retirados da tradição local.

Uma espécie de impressão digital que facilmente anuncia o pegacho é o seu falar típico. É difícil dizer em que consiste a sua especificidade, uma vez que não consta que alguma vez tenha sido estudado. Mas a verdade é que “nota-se logo que é pegacho”. Por um lado é o tom de voz. Por outro a mudança do “a” em “e” nas sílabas tónicas.

Questão linguística da maior importância é a recusa intransigente da pronúncia de “Pêgo” em vez de Pego (“Pégo”), erro em que cai muito boa gente que não está informada. Outra área de interesse social e linguístico é a das alcunhas: são tantas e tão variadas que houve mesmo quem fizesse um fado usando apenas “alcunhos” como se dizia no Pego.

O território do Pego é sobretudo pobre, pouco apto para a agricultura. Apenas o lugar de Coalhos é terreno de aluvião e a margem junto ao Tejo e a das da Ribeira de Coalhos são férteis, mas são terrenos na posse de umas poucas famílias mais abastadas. Por isso, a estrutura do povoamento é simples: o Pego como sede de freguesia e o pequeno lugar de Coalhos; depois apenas os “montes” ou casais nas herdades das famílias acima referidas.

Em consequência, os pegachos tinham que partir para fora em busca de sustento. Foram e ainda são exímios carvoeiros segundo o método tradicional dos fornos de terra, actividade a que se ligava o tirar a cortiça e o fazer lenha; partiam para as mondas do trigo e do arroz e para a apanha da azeitona; iam ceifar para o Alentejo e mais recentemente vão para a vindima e para a apanha do tomate.

No Pego dominava a agricultura modesta. Os lagares de azeite (um inventário recente identificou pelo menos 16) e as azenhas foram as indústrias tradicionais. O fogo de artifício também teve lugar, existindo ainda hoje a Rua do Fogo. O fabrico de carvão por método tradicional também era actividade vulgar, dando mais tarde origem a uma unidade industrial de produção através de fornos permanentes.

Mais modernamente, a indústria metalomecânica (Rossio, Tramagal e Entroncamento), os serviços em Abrantes, a construção civil em Lisboa ou a imigração para a França e Alemanha (primeiro) e Suíça (depois) têm criado novas alternativas a esses trabalhos forçados que as novas gerações vão evitando. Uma fábrica de lacticínios (produção de queijo) também veio criar alguns empregos e dar ao Pego alguma notoriedade. Nos anos 80-90, a construção da Central Termoeléctrica do Pego veio criar novas oportunidades, directas e indirectas, de trabalho na própria freguesia.

Desde a pré-história que ficaram vestígios de ocupação humana no Pego, por exemplo nos Cascalhos. Os romanos também deixaram vestígios, por exemplo nos Negrinhos e nos terrenos férteis de Coalhos. Mas uma povoação com o nome de Pego e continuidade no tempo apenas, até ao momento, nos surge supra referida num documento de 1332, portanto no século XIV. Em 1515, aquando da publicação do “Livro de Posturas da Vila de Abrantes”, já os “lavradores e criadores” do Pego, entre outros, obrigaram a uma correcção quanto ao “andaymo das eguoas e asnas” em virtude de dizerem “ que nom era asy em custume antiguo”.

Carece, portanto, de fundamento a pretensão de colocar a origem do Pego quer nos ciganos (pois estes chegaram a Portugal apenas no século XV) quer em habitantes da Nazaré que aqui se teriam vindo fixar (pois a Nazaré, ao que parece, não terá surgido antes do século XVI). Nesta data mais precisamente em 1517, já o Pego era uma das localidades mais importantes do concelho, com 53 fogos, tantos como S. Miguel e quase tantos como Alvega (59). Refira-se ainda que no mesmo “Livro de Posturas” surge designado o “porto de Coalhos”. Também o porto do Pego terá tido uma actividade significativa. Ainda hoje a toponímia local apresenta a o Porto dos Pescadores e a Rua da Barca, e da igreja paroquial sai todos os anos em procissão, a 15 de Agosto, um original andor em forma de barco. Na margem do Tejo ainda podem ver-se os restos de fornos de cal e na década de 80 surgiram ruínas, do que parece ter sido também um forno.

A igreja paroquial é simples e data do início do século (iniciada em 1900). Um pequeno nicho-capela, dedicada ao Senhor dos Aflitos, tem forte significado local, mas não apresenta valia arquitectónica de assinalar. Esta existe apenas nas casas de traça tradicional, como já foi referido.

A República foi vivida intensamente, com conflitos graves que ainda hoje vivem nítidos na memória dos mais velhos. Aqui existiu mesmo um Centro Republicano activo.

Aquando do concurso da “aldeia mais portuguesa de Portugal”, o Pego, depois de ter superado a fase distrital, foi eliminado em fase adiantada, ao que se sabe pelo facto de a igreja local não ter torre. Talvez por isso, ou por razões mais remotas, os pegachos ficaram a sentir como uma ferida a falta de torre na igreja paroquial.

É a partir da década de 40 que o Pego desperta um pouco da sua ruralidade: instalação de água ao domicílio (1938) e de electricidade (1958), maior emprego na indústria nas redondezas, maior abertura ao exterior, que até aí a comunidade local do Pego era muito fechada a estranhos, mesmo temida do exterior. Ainda nos anos 50, aparece o Centro de Recreio Popular que viria a dar origem à Casa do Povo (1957).

Em 1967 foi fundado o CAPEC, Clube de Caça e Pesca, que iria ter um impacto significativo no meio local. Mas é à volta da Casa do Povo que, nos anos 70, se vivem momentos de intensa actividade: a Secção Desportiva com a sua equipa de Futebol no campeonato do INATEL, a Secção Cultural (criada em Março de 1974) sobretudo com o Grupo de Teatro e um jornal local (O Pegacho) e o Rancho Folclórico polarizaram uma dinâmica que reforçou o nome e renovou a imagem do Pego no contexto concelhio e regional.

Este foi ainda o tempo de o Poder Local iniciar ou acentuar os maiores melhoramentos: reforço do abastecimento de água (que era escassíssima) e as linhas de distribuição de electricidade, construção da rede de esgotos e dos jardins do Sobral e da Lameira e aterro da Horta do Cano para onde viriam a mudar-se as festas.

Na década de 80, a construção da Central Termoeléctrica do Pego veio abrir novas dinâmicas na população, levar o nome do Pego bem para o exterior e obter com isso alguns novos equipamentos, de que se destaca o Pavilhão Desportivo. Um novo clube, o Grupo Desportivo do Pego, tinha entretanto substituído a Secção Desportiva da Casa do Povo do Pego. A construção da sede da Junta de Freguesia, com posto médico, a substituir o antigo, a edificação das instalações fixas das festas de verão e de todo o complexo da Horta do Cano são as obras que marcam os anos 90. Entretanto, o calcetamento ou alcatroamento das ruas e definição dos nomes das ruas e dos números de polícia iam alterando a fisionomia da povoação.

Não há memória de grandes personalidades do Pego que tenham obtido glória no exterior. No próprio Pego há, no entanto, duas personagens a assinalar. A primeira, é conhecida como a “bruxa do Pego”, mas ela, a D. Arminda, apenas se afirma como ervanária e dotada de alguns dons que lhe permitem contactar com o Além. De qualquer modo é conhecida bem longe, recebendo gente que se acolhe aos seus cuidados vinda de um raio de influência de dezenas e dezenas de quilómetros. A segunda personagem é João de Oliveira (1905-1984), poeta popular, primeiro trabalhador agrícola e depois cauteleiro por motivo de paralisia. Muito popular no Pego e arredores, deixou uma vasta obra inédita, versos que ele próprio oferecia às pessoas que passavam, copiados em papéis que apanhava, normalmente de pacotes de farinha pedidos a uma vizinha que era boleira.

Já lá vai, portanto, bem longe o tempo que inspirou outro poeta popular repentino: “Ó Pego da Cruz / De Verão não tens água / De Inverno não tens luz”.

Fonte: Anafre  —  0000-00-00 Topo da página
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