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  As fontes da nossa memória

Na nossa infância tínhamos a nítida impressão de que o Tempo passava mais devagar. Decorria uma eternidade até o período de férias chegar; o Natal, sempre ansiosamente aguardado, era um evento que se repetia muito raramente...

O homem é um ser com história, e esta é o espaço e o tempo do possível.

Na nossa infância tínhamos a nítida impressão de que o Tempo passava mais devagar. Decorria uma eternidade até o período de férias chegar; o Natal, sempre ansiosamente aguardado, era um evento que se repetia muito raramente.

À medida que crescemos a história inverte-se. Parece que o tempo se acelera. Quando nos damos conta já estamos prestes a ultrapassar o primeiro semestre para, logo em seguida, nos surpreendermos com as os primeiras cores natalícias. E, apesar dessa mudança de percepção, sabemos que as intermináveis horas da infância contêm os mesmos fugazes 60 minutos da fase adulta. No fundo, é a nossa vivência que muda a partir de certa idade, e não o tempo. O tempo não muda. Os movimentos dos ponteiros do relógio apenas registam a nossa passagem dentro do tempo. O tempo não passa, nós é que passamos dentro dele.

Resta-nos evocá-lo, no nosso pensamento. Os bons momentos passados, claro, pois as nossa memórias dolorosas não vale a pena trazê-las à superfície. Aliás, é impossível voltar ao passado. Afinal, que faríamos nós com ele? Não o podemos modificar, não podemos rever aqueles que nos deixaram…e, como diz um amigo meu, Padre Franciscano, Frei Adelino Pereira, num seu livro recentemente editado (“Clamei por Vós, Senhor!”), “Todo o nosso bem é este nosso instante apenas. O passado passou e o futuro ainda não veio”.

Mas é bom sonhar acordado com as paisagens que nos acariciaram a Alma, tal como essa geografia envolvente de Alvega, com os seus campos e o seu mágico Tejo muito azul, de um azul que, perdoem-me se isto é ilusão, não existe em outro rio deste Portugal, e que ainda hoje me murmura aos ouvidos uma mensagem de melancolia mas igualmente de paz, que me reporta a um outro País, mais inocente, onde Deus estava presente no coração das gentes, onde estas conheciam os valores da Família, da Amizade, da Fraternidade, quando ainda não existia uma sociedade alienada onde todos os dias se sacrifica ao deus-mercado. Perderam-se esses valores na transição para o regime democrático. Porque será que o Homem nunca consegue conciliar o melhor de dois mundos?
Vem tudo isto a (des) propósito de um artigo fabuloso da Fátima Castanho que embelezou durante meses a face do nosso “site”.

Acerca das “Fontes da nossa Memória”. Já tinha saudades de escrever aos amigos de Alvega. Mas o Tempo (ou a falta dele) obrigou-me a uma ausência não desejada. E ela fez-me recordar uma fonte existente dentro da Quinta da Senhora da Guia para onde, com os meus 15 anos, nas longas férias de verão escapava, nas tardes calmosas, para ir ler à sombra de árvores protectoras, ouvindo a suave voz da água, que se deixava cair de uma fonte para um largo tanque, a “Poesia III” de José Gomes Ferreira, um volume que ainda o tenho, edição amarelecida de 1971. Era o Tempo em que existia o gosto pela leitura e pelas coisas do Espírito, e boas editoras que elaboravam capas maravilhosas para os seus livros. Gostava daquela Poesia, pese embora a sua corrente neo-realista, por vezes ácida, cruel. Mas também muito humana e, por vezes, surpreendentemente mística. Permitam-me que reproduza aqui um brevíssimo poema daquele volume:

“E se, de repente, voassem dos teus olhos duas pombas azuis?
Então sim, poeta, cairia pela primeira vez no mundo o espanto da primavera completa.”


Não se admiravam os caseiros de me verem ali, sentado nos bancos de pedra, sabiamente dispostos em redor do tanque. Hoje, já não seria possível voltar a repetir a experiência. Já ali passei e encontrei, junto à ponte, à saída ou entrada, como queiram, de Alvega, os portões de ferro fechados, os mesmos que a minha avó Adélia, com o seu sorriso, abria, pois nela confiavam umas velhotas que ali viviam e que sabiam que ela tinha a chave da amizade.

Delfim Lourenço Mendes, de Lisboa, com amizade.

Delfim Lourenço Mendes  —  2004-10-11 Topo da página
A entrada para a Quinta do Pombal

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